Scâneres intraorais: veracidade e precisão são coisas distintas, e a que importa é a segunda
As fichas técnicas dos scâneres intraorais declaram um valor de exatidão em micrómetros, e esse número é lido como se descrevesse a qualidade do aparelho. Descreve apenas metade do problema.
A norma ISO distingue duas grandezas. A veracidade mede quanto a digitalização se aproxima da realidade; a precisão mede quanto duas digitalizações do mesmo objeto se assemelham entre si.
Um scâner pode ser muito preciso e pouco verdadeiro: repete o mesmo erro todas as vezes. Num elemento unitário isso importa pouco, porque a restauração é construída sobre essa digitalização. Em arcada completa a veracidade torna-se determinante, porque os erros somam-se ao longo do percurso.
Isto explica o comportamento mais discutido da tecnologia: os scâneres funcionam muito bem em distâncias curtas e perdem fiabilidade em arcadas completas.
A razão está no modo como constroem o modelo. Cada fotograma é alinhado com o anterior, e cada alinhamento introduz um erro mínimo. Em quarenta milímetros o erro acumulado é desprezável; numa arcada inteira torna-se mensurável.
As revisões sistemáticas descrevem desvios abaixo dos 50 micrómetros em unitários e vãos curtos, com valores que podem ultrapassar os 100 micrómetros em arcada completa, e diferenças marcadas entre sistemas.
A estratégia de digitalização influi mais do que sugere a documentação dos fabricantes. Um percurso que volta sobre os próprios passos cria pontos de referência adicionais e reduz a deriva; uma digitalização linear de uma extremidade à outra maximiza-a.
A ausência de pontos de referência é o limite físico. Uma zona desdentada extensa, lisa e sem anatomia reconhecível não oferece ao scâner elementos onde alinhar os fotogramas, e é aí que o erro cresce.
É também a razão pela qual, em arcadas totalmente desdentadas, a digitalização intraoral continua menos fiável do que a impressão convencional, salvo com referências artificiais aplicadas sobre a mucosa.
A humidade comporta-se de forma diferente do esperado. Os scâneres sem opacificante toleram bem a saliva mas não os líquidos em movimento: uma superfície molhada e parada digitaliza-se, uma gota que escorre produz artefactos.
A vantagem real não é a precisão mas o fluxo de trabalho. Sem desinfeção, sem envio, sem deformação por transporte, e com a possibilidade de rever o preparo em ecrã ampliado e corrigi-lo na mesma consulta.
Essa verificação imediata vale muitas vezes mais do que a diferença em micrómetros: uma margem incompleta vista no ecrã corrige-se em dois minutos; a mesma margem descoberta no laboratório custa uma consulta.
Em síntese: unitários e pontes curtas são território do scâner, onde veracidade e precisão são ambas adequadas. Em arcada completa a escolha avalia-se caso a caso, e no desdentado total a impressão convencional conserva uma vantagem documentada.