Exame da mucosa: dois minutos de controlo intercetam o que o doente não refere

O exame dos tecidos moles é a parte da consulta que mais vezes se omite, porque o doente vem pelos dentes e a atenção vai para aí.

É contudo a única ocasião em que uma lesão assintomática pode ser intercetada, e as lesões da mucosa oral nas fases iniciais não doem.

A sessão de higiene é o melhor momento para o realizar, porque tem cadência regular, dura o suficiente e a boca já está iluminada e afastada.

A sistemática conta mais do que a duração. Uma sequência fixa exige dois minutos e não deixa zonas de fora; uma inspeção ao acaso olha de cada vez para pontos diferentes.

Uma sequência praticável parte dos lábios e vestíbulos, segue para as bochechas, depois o palato duro e mole, depois a língua em todas as faces, e termina no pavimento da boca.

As áreas de maior risco para o carcinoma oral são o pavimento da boca, os bordos laterais e a face ventral da língua. São também as zonas pior inspecionadas.

O bordo lateral da língua examina-se segurando a ponta com uma gaze e tracionando-a lateralmente. Sem esta manobra, a parte posterior do bordo permanece invisível.

O pavimento da boca examina-se fazendo elevar a língua ao palato, e deve também palpar-se, porque uma lesão submucosa sente-se antes de se ver.

As lesões que merecem estudo têm características reconhecíveis: uma placa branca que não se destaca, uma mancha vermelha aveludada, uma úlcera sem causa evidente, uma área endurecida à palpação.

O critério mais simples e mais útil é temporal: qualquer lesão que não cure em duas ou três semanas, após remoção de eventuais causas locais, deve ser referenciada.

A documentação fotográfica de uma lesão duvidosa permite a comparação objetiva no controlo seguinte, e é mais fiável do que a memória.

A referenciação não é um insucesso diagnóstico mas o comportamento correto. Uma referenciação a mais custa uma consulta; uma a menos pode custar meses numa patologia em que o tempo determina o prognóstico.

Em síntese: a sessão de higiene é o momento certo, a sequência fixa vale mais do que a duração, o bordo lateral da língua e o pavimento exigem manobras ativas, e toda a lesão que não cure em três semanas é referenciada.